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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Um novo ensino superior

O investimento mais "rentável" para qualquer Estado é no capital humano. Um país necessita de qualificações para progredir e alcançar o desenvolvimento económico e social. Empregos qualificados e especializados geram indústrias de ponta, investigação e desenvolvimento de qualidade bem como melhores condições de trabalho para os trabalhadores. São o "motor" económico de um país mas também um motor para melhorias das condições de vida.

Na base da especialização e da elevada qualificação está o ensino superior. Só com um ensino superior de qualidade e acessível a todos é que poderemos criar uma sociedade apta para enfrentar novos desafios e receber indústrias que exigam o máximo das nossas capacidades intelectuais. Pessoalmente creio que a maioria das nossas universidades tem uma qualidade algo elevada (pelo menos no sistema público) e é de louvar o número de portugueses que se destacam em praticamente todas as áreas. É urgente multiplicar investimentos no sentido de aumentar o número de oportunidades e de ofertas de emprego para pessoas com cursos superiores. Contudo, além da aposta na criação de oportunidades de emprego, é preciso também tornar o ensino superior completamente acessível. Só "atacando" as várias frentes do problema é que conseguiremos, gradualmente, substituir a nossa força de trabalho baseada na mão-de-obra barata e sediada em indústrias com fracas perspectivas de futuro por uma mão-de-obra extremamente qualificada e capaz de realizar tarefas que poucos conseguem. Esta é no meu entender o tipo de competitividade pela qual Portugal pode e deve lutar.

O ensino superior deve ser encarado assim como um investimento para o futuro e não como uma "despesa". A contrapartida para o facto de os contribuintes deverem sustentar este investimento é o de que este será útil e proveitoso para todos nós. É a "justificação" para devermos gastar cada vez mais e melhor neste campo. Proveitoso no sentido de formarmos pessoas que terão empregos bem remunerados em áreas que criam bastante riqueza para o país, aumentando as exportações e reforçando a competitividade do país. Mas o investimento deve, na minha opinião, mostrar os seus frutos desde o 1º ano de faculdade. E como mostrar esses frutos?

Através de um sistema de aulas práticas/estágios em que os alunos universitários realizavam desde o primeiro ano de faculdade uma espécie de "serviço comunitário". Estes "estágios" seriam extremamente positivos para o aluno pois no final do curso teria já bastantes experiências extra-curriculares e para a comunidade que seria "servida" de forma gratuita. Estas aulas ou estágios poderiam por exemplo funcionar numa base semanal ou quinzenal (imagine-se por exemplo uma carga horária de 2-3 horas por quinzena).

Dou agora o meu exemplo pessoal imaginando que este sistema estava em vigor. Estou no primeiro ano do curso de Direito. É óbvio que pouco sei comparado com os conhecimentos que tenho de ter para ser um verdadeiro jurista. Mas posso realizar tarefas úteis que exijam poucos conhecimentos específicos e que estejam algo relacionados com a minha área académica. Podia por exemplo redigir actas ou fazer um pouco do trabalho burocrático relacionado com os tribunais e com a justiça em geral. Estava a fazer algo relacionado com o meu curso, estava a adquirir experiência e estava a ser "útil" à sociedade. Um voluntariado relacionado com o curso que era digamos uma espécie de "agradecimento" pelo investimento feito em mim. A exigência de conhecimentos iria aumentando semestre após semestre à medida que os estágios ficavam cada vez mais complexos.

Penso que a adopção deste sistema tornaria possível por exemplo a eliminação de propinas tornando o ensino superior mais acessível à generalidade da população produzindo mais e melhores diplomados. Um investimento no futuro do país que mostrava os seus benefícios desde o primeiro minuto!

sábado, 9 de janeiro de 2010

Crise Alimentar

A fome aliada à pobreza é um dos maiores flagelos da humanidade. Se há alguns séculos atrás este fenómeno era justificado pela elevada dependência face aos fenómenos meteorológicos ou pelo subdesenvolvimento geral das populações hoje em dia a realidade do século XXI é bem diferente.

Temos tecnologia e conhecimento para produzir de forma controlada uma grande variedade e quantidade de alimentos. Temos maneira de transportar de forma rápida e eficiente os produtos que produzimos para os locais onde vão ser consumidos. Conseguimos "contornar" a dependência face à Natureza e optimizar recursos levando a que seja possível produzir alimentos em locais que anteriormente não reuniam condições para tal. Muitos Estados já atingiram um elevado grau de desenvolvimento económico e social e temos o know-how para expandir esse bem-estar social. Porque razão existem nações inteiras a passar fome quando outras deitam toneladas por dia para o lixo? Porque razão existem pessoas a passar a fome em países desenvolvidos quando aquilo que os seus vizinhos desperdiçam era o suficiente para as alimentar?

Infelizmente apesar de dispormos de tecnologia e conhecimento não parecemos dispor da vontade de partilhar e de lutar para que ninguém passe fome. Não precisamos de ir para longe. Em Portugal existem cada vez mais pessoas que não têm dinheiro para comprar alimentos, algo comprovado pela velocidade crescente com que se esgotam os stocks do Banco Alimentar e de outras organizações que se dedicam a esta causa. O mesmo se passa sensivelmente por toda a UE. E é nesta mesma UE que todos os anos milhares de toneladas dos mais variados produtos são deitados para o lixo por excederem as quotas ou por não terem as medidas ideais para serem vendidos ao público. O desperdício continua nas cadeias de supermercados que todos os dias deitam também toneladas de produtos alimentares para o lixo pois o prazo de validade das mesmas expirou. Infelizmente o desperdício não acaba aqui mas sim nas nossas casas onde milhares de pessoas não consomem aquilo que compram e acabam por deitar milhares de alimentos fora.

Não se trata de uma questão de não existir terra arável suficiente para produzir alimentos para todos nós. Não se trata de uma questão de os países desenvolvidos não terem dinheiro suficiente para doar alimentos suficientes para os países em desenvolvimento. Trata-se simplesmente de desperdício. Desperdício inútil e cujo combate iria saciar uma necessidade básica a milhões de pessoas. E esse desperdício tem de ser combatido em todas as vertentes. É claro que temos de tentar resolver a fome "de fundo" a nível mundial com medidas de apoio ao desenvolvimento agrícola nos países pobres, entre muitas outras. Mas temos de olhar para o desperdício produzido como algo bastante negativo do ponto de vista económico, ambiental e acima de tudo social. Algo que tem de ser combatido eficazmente e que será extremamente importante no combate à fome, pobreza e exclusão social. Têm de ser criados mecanismos que evitem o desperdício dos alimentos produzidos em excesso na UE (doação para países fora da UE por exemplo). Para mim é inaceitável a UE por exemplo deitar arroz fora e de seguida informar que vai doar não sei quantos milhões de euros para comprar arroz para determinado país ou região. Os retalhistas deveriam ser obrigados a doar os alimentos que actualmente deitam fora a instituições da sua área. Esses alimentos por terem terminado o prazo de validade não podem ser vendidos ao público em geral mas tendo em conta que estes produtos são desperdiçados diariamente, que o limite de validade tem uma margem de segurança e que as necessidades das instituições são diárias (fazendo com os alimentos fossem consumidos rapidamente) penso que faz todo o sentido doar estes alimentos. Por fim o combate aos desperdícios tem também que ter lugar na casa de cada um de nós, nas escolas, nas empresas, nas cadeias hoteleiras, na restauração e em todo o lado. Só devemos comprar aquilo que realmente vamos consumir, devemos aproveitar os "restos" que com um pouco de imaginação servem muitas vezes para outra deliciosa refeição. Se temos algo em excesso porque não dar um vizinho ou a alguém que sabemos que necessita? Porque não utilizar determinados desperdícios alimentares para produzir adubo orgânico que vamos utilizar ou simplesmente doar à horta comunitária da nossa área de residência?

Estas acções consertadas teriam um impacto enorme na redução da fome além dos benefícios económicos e ambientais associados. Um dos elos desta "cadeia" depende directamente de nós e temos força para pressionar os outros dois. É urgente combater esta verdadeira crise alimentar.

sábado, 20 de junho de 2009

Igualdade de Direitos

Decorreu hoje a 10ª Marcha do orgulho LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgéneros). A décima edição desta marcha apoiada por 11 organizações contou com a presença de cerca de mil pessoas. O objectivo dos participantes é chamar à atenção para a discriminação de que são alvo e para os direitos que lhes são negados (nomeadamente casamento civil e adopção de crianças).

Lisboa foi o local escolhido para a realização da marcha, sendo que o seu trajecto se iniciou no Príncipe Real e terminou nos Restauradores. Ano após ano a Marcha do orgulho LGBT tem vindo a ganhar cada vez mais apoiantes que se sentem de alguma forma excluídos da sociedade, alguns afirmam mesmo que são "cidadãos de segunda". A principal "vitória" destes manifestantes foi a revisão constitucional de 2004 que passou a incluir a orientação sexual como uma categoria em função da qual ninguém pode ser discriminado. Entre os participantes existe o sentimento de que se cumprem com os mesmos deveres que outros cidadãos (heterossexuais) deveriam ter os mesmos direitos.

A marcha iniciou-se às 17:30 e após passar por várias ruas da capital, terminou nos Restauradores onde representantes das associações organizativas discursaram.

Pessoalmente não penso que faça sentido discriminarmos estas pessoas. Desde que cumpram com os seus deveres (e que são comuns a todos nós independentemente da nossa orientação sexual) não vejo qualquer argumento para serem tratados como "cidadãos de segunda". Aquilo que nos distingue dos animais é a nossa capacidade de racíocinio e de evolução constante pelo que não acredito em teses do género "ser homessexual é contra-natura". Por esse prisma também será contra-natura termos deveres e direitos instituídos. Porque existe a Constituição? Porque evoluímos. Porque não competimos mortalmente pelas fêmeas? Porque evoluímos. Porque vemos a sexualidade como algo mais que pura reprodução? Porque evoluímos. Porque aceitamos pessoas que se sintam atraídas por outras pessoas do mesmo sexo? Porque evoluímos. E por aí fora...

Da mesma maneira que devemos respeitar a orientação religiosa, orientação cultural, orientação de pensamentos, orientação artística, etc. devemos respeitar também a orientação sexual de cada um. Pondo isto, sou a favor do casamento civil entre homossexuais. Se a Igreja Católica deveria ou não ser a favor, isso é algo diferente. Eu posso ter a minha opinião, mas só segue a religião católica quem quer. Não existe uma "obrigação" de ser contra nem de ser a favor. É algo que cabe à instituição em si e que caberá aos seus seguidores avaliar, julgar e decidir. Sob a "tutela" da Constituição estamos todos e como tal, é essencial permitir o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo, para garantirmos a igualdade de direitos que afirmamos respeitar. Em relação à adopção de crianças mantenho algumas reservas, e não me considero suficientemente informado para conseguir afirmar sim ou não. As minhas reservas não derivam de qualquer tipo de discriminação mas antes da forma como a sociedade em geral iria aceitar essa ideia. Se de facto os homossexuais são diariamente alvo de discriminação, isso não seria nada positivo para a criança que têm a sua cargo. Ou seja, é muito difícil para um filho de um casal homossexual se integrar na sociedade e ver a sua situação respeitada desde infância se os próprios pais são discriminados e se a maioria das pessoas vê a sua situação como algo "incorrecto". Para as crianças entenderem que a homossexualidade é algo perfeitamente normal e que em nada modifica os nossos direitos e deveres, é necessário primeiro que os adultos tenham essa noção.