sábado, 13 de junho de 2009

NASA | Missão adiada

O vaivém espacial Endeavour deveria ter descolado às 12:17 hora de Lisboa. Contudo o lançamento foi abortado devido a um problema no tanque de combustível externo. Quando o tanque estava já a 98% da sua capacidade detectou-se uma fuga de hidrogénio que comprometeu o lançamento.

Esta fuga é bastante semelhante à detectada em Março no vaivém Discovery. A NASA está bastante preocupada com este problema técnico que se vem repetindo nos lançamentos. Os engenheiros apenas poderão começar a resolver o problema daqui a 24 horas, o tempo necessário para esvaziar o tanque. As reparações deverão demorar pelo menos 4 dias mas prevê-se que o lançamento seja realizado com a maior brevidade possível.

A actual missão do vaivém Endeavour é entregar e instalar os últimos elementos do laboratório japonês Kibo na Estação Espacial Internacional. A duração estimada desta missão é de 16 dias e representa mais um passo na "conquista espacial".

Ambiente | 1-1 ao intervalo

O dia de hoje contou com um vasto volume de notícias sobre ambiente e o futuro do planeta. Terminou a conferência de Bona (com a duração de 2 semanas) cujo objectivo era "preparar terreno" para alcançar um acordo na conferência de Copenhaga, Dinamarca a realizar em Dezembro deste ano. Esta conferência é extremamente importante já que se espera que seja criado o "sucessor" do protocolo de Quioto. Neste novo protocolo a vigorar entre o período 2012-2020 espera-se um sério compromisso na redução das emissões por parte dos países desenvolvidos, uma contenção da subida das emissões por parte dos países em desenvolvimento e acima de tudo, um acordo que abranja o mundo todo e que seja ratificado por todos os países.

Infelizmente estas duas semanas de negociações pouco contribuíram para o desenvolvimento da situação. Criaram antes um impasse, que terá de ser resolvido caso se pretenda estabelecer um novo protocolo na Dinamarca. A maioria dos países em desenvolvimento pretende uma redução de 25-40% por parte dos países desenvolvidos, meta que estes consideram prejudicar demasiado a sua economia. Bill Hare do IPCC teme tanto o efeito deste novo impasse que afirma que chegar-se a um consenso por volta dos 25% já é bastante difícil. A meta dos EUA foi enfraquecida em relação à proposta inicial de Obama e o Japão apresentou a sua própria meta que se situa numa redução de 8% até 2020 (face aos níveis de 1990). Estes "entraves" por parte dos países desenvolvidos aliam-se à fraca vontade de mudar por parte de países como a China e a Índia, criando este desacordo. Ninguém está disposto a dar o primeiro passo, algo que é lamentado pelas associações ambientalistas que acusam os políticos de inacção face ao problema.

Na minha opinião a Conferência de Bona foi uma grande derrota no desenvolvimento de um novo protocolo. Estava à espera de uma maior liderança por parte dos países desenvolvidos mas também um maior envolvimento por parte das potências emergentes como a China e a Índia. É dificil mas imprescindível terminar Copenhaga com um novo projecto e que terá de cortar pelo menos em 25% as emissões dos países desenvolvidos bem como estabelecer 2020 como o ano "limite" para o aumento das emissões por parte das novas potências.

Contudo o dia de hoje foi também marcado por uma importante "vitória" no campo ambiental. Organizações não-governamentais como a Greenpeace bem como muitas outras, têm lutado sistematicamente pela floresta Amazónica tentando impedir a sua destruição. Esta floresta encerra em si mais de um terço de toda a biodiversidade mundial e é sem dúvida, o "pulmão" do planeta. Todos os dias são abatidos ínumeros hectares de floresta virgem que dão a origem a plantações de biodiesel, explorações agrícolas ou pecuárias. Além de toda esta destruição do património natural da Amazónia, a degradação da floresta está muitas vezes associada a condições de trabalho miseráveis ou mesmo escravas. O Ministério Público Federal do Pará decidiu juntar-se nesta luta e publicou uma lista de fazendas (explorações) pecuárias que abatem indiscriminadamente a floresta para obterem cada vez mais terrenos. A competitividade económica dos produtos é ganha à custa das condições inumanas dos seus trabalhadores.

Em resposta as três maiores cadeias de supermercados do Brasil decidiram deixar de comprar carne proveniente destas fazendas. Wal-Mart, Pão de Açúcar e Carrefour são as três cadeias que tomaram esta decisão, após reunião entre todas. Espera-se agora que estas acções se ampliem por mais 72 compradores de produtos provenientes daquelas explorações bem como se extenda a outros dois estados brasileiros com grande influência no destino da Amazónia, Mato Grosso e Rondónia. As associações ambientalistas congratulam-se por esta vitória mas continuam a longa batalha de salvar a Amazónia que está muito longe de terminar.

Tanto a derrota como a vitória de hoje vão ter um grande impacto mundial. Ao intervalo está 1-1 e eu tenho a camisola do planeta Terra vestida. Como vai acabar o jogo?

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Economia | EUA vs UE

Hoje a Agência Financeira publicou uma série de artigos que permitem fazer uma análise sobre a actualidade económica e reflectir no seu futuro. Através da comparação e da análise dos dados, podemos reflectir sobre as opções tomadas pela UE e as opções levadas a cabo pela Casa Branca. São duas linhas distintas de pensamento que resultaram em duas formas diferentes de abordar uma crise comum.

Para começarmos a análise nada melhor que um artigo global. O FMI deverá rever em alta a sua previsão para o crescimento da economia em 2010. A actual expectativa situa-se no 1,9% e deverá subir meio ponto para os 2,4%. No campo da economia global, são boas notícias e a noção de retoma começa a solidificar as suas bases e a aumentar os seus argumentos. O mesmo artigo termina dizendo que esta revisão em alta se deve aos planos de estímulos levados a cabo por vários governos (por exemplo os EUA e a China). A previsão para 2009 continua a apontar para uma contracção global de 1,3%.

Apesar da retoma internacional começar a ganhar contornos cada vez mais delineados, a situação na Europa não é animadora. Já nos EUA a esperança parece passar dos discursos de Obama para os números em si.

Após os primeiros seis meses do ano terem sido piores que aquilo que o BCE previra, esta instituição reviu os seus números para 2009 e 2010. A provocar o agravamento da situação económica está o galopante desemprego em toda a UE, responsável pela "falha" na previsão do Banco Central Europeu. Assim sendo estima-se uma contracção de 4,6% em 2009 e de 0,3% em 2010, afastando a retoma para um futuro mais longínquo. Além da deterioração da economia espera-se um agravamento do desemprego, ou seja, a UE ainda não atingiu o seu pico de desemprego e o mesmo deverá continuar a aumentar ao longo deste ano e do próximo. Estes números encontram-se alinhados com as previsões apontadas para Portugal que estimam uma contracção de 3% este ano e uma estagnação no próximo. O desemprego actualmente situado em 8% deverá subir até aos 10% antes de estabilizar e começar a diminuir.

Nos EUA apesar das enormes dificuldades do presente, a perspectiva de futuro é mais animadora. E existem dados a comprová-lo. O número de pedidos de subsídio de desemprego está em queda. De acordo com o Departamento do Trabalho são 6,82 milhões os americanos a receber este subsídio mas o seu crescimento está a abrandar, revelando que as empresas estão a dispensar cada vez menos pessoal, confiantes numa melhoria da situação económica já na segunda metade do presente ano. Outro número encorajador das medidas da administração Obama é o das vendas a retalho. Segundo o Departamento do Comércio este número cresceu pela primeira vez em 3 meses, subindo cerca de 0,5%.

Apesar dos números serem ainda bastante preliminares e da situação económica global estar bastante longe do normal, é seguro dizer que as perspectivas de futuro não são as mesmas, quando comparamos a UE com os EUA. Porquê? Para mim a chave reside nesta palavra: Acção!

Obama preparou cuidadosamente um plano de estímulos durante o período de transição e já como presidente, lutou severamente pela sua aplicação. Um plano onde é possível sabermos as áreas de acção e como as mesmas poderão ajudar a economia a inverter este ciclo negativo. Um plano ambicioso (e se dependesse somente de Obama seria ainda mais ambicioso) e que passado algum tempo, contou com a "ajuda" de planos para o crédito e para o mercado imobiliário. Quer sejamos a favor ou não dos planos de estímulos, temos que reconhecer mérito a Obama. O mérito de agir. A sua administração não ficou à espera que o mercado resolvesse o problema sozinho. Apostou na saúde, na educação, em energias alternativas, na reconstrução urbana e na formação profissional. Enviou fundos para os Estados aplicarem localmente e investiu em transferências para as camadas sociais com menores recursos. Aumentou a dívida? Certo. Correu riscos? Sim. É necessário ainda bastante trabalho para que o seu plano resulte? Sem dúvida. Mas a Casa Branca agiu! Actuou de acordo com aquilo que acredita ser a solução para esta crise. E a avaliar por estes números, a aposta parece estar a ser ganha,

O que fez o BCE? Desceu as taxas de juro depois dos mercados assim o preverem e a um ritmo mais lento que o esperado. E manteve-se preocupado com a inflação quando assistíamos a uma descida do preço dos produtos. Desemprego? A única preocupação do BCE em relação ao desemprego é a de dizer que o mesmo vai continuar a aumentar. E prepara-se para subir as taxas de juro mal seja possível. Soluções? Nem uma. E que recomendou a Comissão Europeia? Que os governos nacionais tomassem medidas. Como vivemos em economias isoladas e como esta crise é localizada, tem todo o sentido "mandar" os governos nacionais tomarem medidas. Mas tomar medidas sem desrespeitar o PEC senão serão alvo de sanções. Faz sentido a UE não actuar em conjunto? Não. E mesmo que fizesse, existia espaço de manobra? Não.

Pessoalmente sou a favor dos planos de estímulos. Pelo facto de acreditar que são a solução para esta crise e por aquilo que vejo na China e nos EUA. Deveria-se aplicar a mesma solução para a Europa e deveríamos esquecer a inflação, a dívida e tudo o resto e pensar sim no desemprego e nas dificuldades dos países do leste europeu. Neste período de crise a união é necessária mais que nunca e encerra em si a oportunidade de fortalecer essa mesma união e de caminharmos na direcção certa em relação à construção europeia. Não posso garantir que a solução seja um plano de estímulos europeu. Mas posso garantir que não actuar não é solução. E tanto o BCE como a Comissão Europeia não deveriam ser irredutíveis nas suas posições e nos seus pensamentos. É preciso agir, e agir rapidamente e de uma forma convicta. Os dados mencionados acima são um verdadeiro aviso para a UE. Se não actuarmos, arriscamo-nos a prolongar a recessão e a subida do desemprego enquanto o resto do mundo recupera e cresce. E com o arrastamento desta crise económica, cimenta-se cada vez mais outra crise, de uma forma quase proporcional. A crise do afastamento dos vários povos da Europa, crise essa que será bastante prejudicial para o futuro da UE e para a construção do projecto europeu.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Home - Introdução

O planeta Terra é a nossa casa. Independentemente da nossa cor, raça, nacionalidade, crença religiosa, sexo, peso, altura, qualidade de vida, etc. Supostamente por ser a casa de todos nós, deveríamos instintivamente cuidar dela. Infelizmente não o fazemos muitas vezes por ignorância. Quantos de nós conhecem a verdadeira dimensão do nosso planeta, o conjunto de relações interdependentes existentes e todos os recursos disponíveis? Eu não e duvido que alguém conheça o nosso planeta a 100%. Contudo existem formas de nos informamos de uma maneira geral e simples mas que pode ser fundamental para uma melhor compreensão da nossa casa. E essa compreensão é a melhor forma de nos convencer a agir em prol dela e lutarmos pela sua preservação.

A Terra é uma só entidade, simbolizada por todos os seres vivos existentes e por todos os elementos que a compõem. O ser humano individualmente não existe. Apenas existe quando interligado com o meio que o rodeia, ou seja, ligado aos outros seres vivos e ao próprio ambiente. É essa ligação que por vezes é esquecida devido a um afastamento cada vez maior da Natureza e do mundo natural. Mas não nos podemos esquecer que tudo aquilo que construímos e desenvolvemos vem sempre de algo existente na natureza, de algo existente no planeta que habitamos. Podemos esquecer a natureza mas não podemos viver sem ela. Podemos criar uma "bolha" à nossa volta mas a única forma de a sustentarmos é com os recursos angariados fora da bolha. A preservação da Terra não é uma opção ou uma prova de bom coração mas sim uma obrigação e uma necessidade. Necessidade essa que ao não ser cumprida nos leva à extinção.

Home é um novo documentário de Yann Arthus-Bertrand acerca do planeta Terra. Este ambientalista é bastante conhecido pelas suas excelentes imagens aéreas que retratam o nosso planeta de uma forma única. Este documentário além de expor toda a beleza que a Terra encerra, lança também um olhar preocupado sobre o seu futuro, alertando para uma correcta e eficaz gestão dos recursos naturais. Essa será a única forma de mantermos o planeta saudável e belo. O vídeo está disponível no Youtube (na íntegra até 14 de Junho) e a sua estreia mundial realizou-se em mais de 50 de países. Sem duvida um excelente contributo para conhecermos melhor o nosso planeta e para nos envolvermos activamente na sua protecção.

Tenciono voltar a abordar este documentário após visionar o mesmo. O próximo post sobre Home será um resumo do vídeo e a minha crítica face ao mesmo.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Água | Importância e gestão

Como forma de sinalizar o Dia Mundial do Ambiente (05 de Junho), a Câmara Municipal de Lisboa decidiu implementar duas medidas que contribuem para a sustentabilidade do município.

Actualmente existem apenas 2 pontos de recolha de equipamentos electrónicos e eléctricos em todo o município e esse número será alargado para 15, tentando aumentar a recolha deste tipo de resíduos que são extremamente prejudiciais para o ambiente quando atingem o seu "fim de vida" e não são devidamente tratados e reciclados. A outra medida anunciada pela CML é uma modificação na limpeza das ruas. A limpeza urbana envolve um consumo de 2 milhões de metros cúbicos por ano. A alteração implementada é a origem dessa água que actualmente deriva da própria rede, ou seja, consome água potável. A partir do Dia Mundial do Ambiente essa água passou a ser recolhida das ETAR de Chelas e Alcântara passando a consumir água tratada resultando numa enorme poupança de água potável pois a água tratada já foi previamente utilizada. Esta tarefa ficou a cargo dos camiões cisterna da autarquia e resulta de uma parceria entre a CML, a Simtejo e a EPAL.

Tomo o Dia Mundial do Ambiente e estas duas medidas implementadas pela Câmara Municipal de Lisboa somente como ponto de partida para analisar a temática da água, focando-me na sua importância enquanto recurso vital para a vida humana, bem como para todas as formas de vida que conhecemos. Cada vez existem mais cientistas, economistas, ambientalistas, etc. a denominar a água como o "ouro azul" ou o "ouro do séc.XXI".

Infelizmente a água não tem tido grande relevo quando se aborda a luta contra as alterações climáticas. Esse campo está monopolizado pela geração de energia renovável. É importante substituir o petróleo e o carvão enquanto geradores de energia mas temos que nos recordar que esse não é o nosso único problema e como tal, temos de abordar todos os outros que somente conjugados serão capazes de apresentar uma verdadeira solução para o planeta e para a Humanidade.

Actualmente, de uma forma teórica, a água é abundante para nós (habitantes dos países desenvolvidos) pois basta ligar a torneira e até é relativamente barata, especialmente quando comparada com os preços dos combustíveis. Tudo isto leva-nos a negligenciar a verdadeira importância da água e a crescente necessidade de reduzir os nossos consumos. Sem electricidade não seria possível o mundo de hoje. Sem água não seria possível qualquer mundo.

Também do ponto de vista económico é imperativo pouparmos água e garantir a sua sustentabilidade futura. O desenvolvimento de novas potências leva a numerosos crescimentos no consumo de água per capita e vem agudizar as dificuldades globais em fornecer quantidade equivalente à procura. Países como a China estão já a sentir os efeitos da escassez da água levando-a a realizar projectos megalómanos como a construção de um túnel subterrâneo entre o Rio Amarelo e o Rio Yantzé para transferir caudal do segundo para o primeiro. Mesmo em Portugal assistimos a uma exploração cada vez mais dispendiosa dos recursos hídricos (ligada à tão contestada taxa de recursos hídricos) fruto de uma oferta cada vez menor e de mais difícil acesso. A escassez de água afectará todo o mundo mas os países do sul da Europa serão dos mais afectados. Corremos também de risco de aumentar a pobreza nos países subdesenvolvidos e de proliferar mais doenças bem como de prejudicar seriamente a agricultura a nível mundial bem como a pecuária. O seu custo será cada vez maior e à medida que cada vez menos pessoas tiverem acesso a um bem absolutamente indispensável os conflitos e tensões sociais tornar-se-ão cada vez mais frequentes e violentos. Todos os países terão de participar numa solução global para este problema e comprometer-se a implementar medidas sérias. Os projectos megalómanos apenas adiam o problema e não podemos "confiar" no gelo para nos salvar pois está a derreter a uma velocidade recorde. A dessalinização não se apresenta como solução pela elevada quantidade de energia que necessita e pelo facto da água dessalinizada não ter os mesmos componentes que a água doce.

Uma nova gestão é urgente! E a responsabilidade dessa gestão é do governo, das empresas mas também nossa. Não podemos esperar que leis e incentivos governamentais ou campanhas nos media façam o nosso trabalho. Como forma de finalizar o meu post deixo uma pequena lista com algumas sugestões ao alcance de todos nós para reduzirmos o consumo de água.

- Não tomar banhos mas sim duches rápidos.
- Verificar e reparar todas as anomalias em torneiras e canalizações.
- Regar as plantas ao final da tarde ou anoitecer para evitar uma maior evaporação.
- Lavar o carro com um balde ou com uma mangueira de pressão.
- Colocar redutores de caudal nas torneiras.
- Colocar uma garrafa de 1,5L (cheia) no autoclismo.
- Ao lavar os dentes utilizar um copo e não água corrente.
- Reutilizar a água do banho para regar as plantas.
- Utilizar a máquina de lavar loiça e de lavar roupa somente com a carga cheia.
- Desligar a água enquanto ensaboa as mãos ou coloca shampôo ou gel de banho no corpo.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Educação | Formação profissional

Muito se tem debatido acerca do alargamento da escolaridade obrigatória para o 12º ano. A educação é uma temática que influencia todas as outras e, numa altura de crise, assume dimensões ainda maiores. A actual ministra da educação defende que Portugal pode aspirar de forma realista a este alargamento de 3 anos na escolaridade obrigatória bem como à generalização do ensino pré-escolar. Esta proposta recebe a aprovação de todos os outros partidos com acento parlamentar apesar de questionarem o oportunismo político desta proposta, devido à proximidade com as eleições legislativas.

Pessoalmente concordo com este alargamento e fico feliz por ver que os partidos, pelo menos uma vez, se unem em torno de uma proposta que efectivamente é importante para o futuro do país. Porque é importante alargar em 3 anos a escolaridade obrigatória? Que benefícios reais traz? Como pode isso resultar num desenvolvimento de Portugal no futuro e consequentemente em uma melhor capacidade de resposta a crises futuras?

Para um país se desenvolver necessita de pessoas formadas e especializadas. Actualmente é visível a urgência de formarmos cada vez mais e melhor as pessoas e é notório que a diminuta taxa de alfabetização e baixa escolaridade da generalidade dos portugueses durante o regime do Estado Novo trouxe consequências nefastas ainda patentes nos dias de hoje. Na minha opinião, a educação está muito relacionada com o facto de Portugal ser frequentemente apontado como estando na "cauda da Europa", ou seja, se estamos nessa cauda isso deve-se em grande parte à falta de formação académica/profissional da maioria da população portuguesa. Felizmente esta tendência está-se a inverter e alargar a escolaridade obrigatória até ao 12º ano seria mais um passo na direcção correcta para a construção não do presente, mas do futuro de Portugal.

Somente após a conclusão do ensino secundário é que nos podemos candidatar ao ensino superior. Ter um grau académico superior não confere emprego garantido mas aumenta essa probabilidade e aumenta o leque de funções que podemos desempenhar. Um licenciado pode desempenhar as funções daquele que tem o ensino secundário, mas aquele que tem apenas o ensino secundário não pode desempenhar todas as funções para as quais o licenciado está habilitado. Nesse aspecto será sempre melhor para a pessoa individualmente e para o país como um todo, ter um maior número de pessoas capazes de desempenhar um maior número de funções, adaptando-se a mais empregos e correspondendo com mais facilidade às necessidades do país. Ao aumentarmos a escolaridade obrigatória para o 12º ano, estamos a promover o ingresso no ensino superior, ingresso esse que é cada vez mais fundamental para o sucesso individual e colectivo. Mesmo que esse ingresso não se verifique imediatamente após a conclusão do ensino secundário existe sempre essa possibilidade no futuro. Enquanto que alguém com o 9º mesmo que decida já em idade adulta aumentar a sua formação, muito provavelmente ficar-se-à pelo 12º ano.

Actualmente existe um gama cada vez mais alargada de cursos profissionais e técnicos inseridos nos 3 anos que marcam a duração do ensino secundário. Estes cursos através de umas reformulações e de uma carga horária mais elevada, possibilitam em 3 anos que os estudantes obtenham o 12º ano e aprendam uma profissão ao mesmo tempo, adquirindo também experiência de trabalho com o estágio que têm incluído no curso. Estes cursos são também extremamente importantes para o desenvolvimento do país, pois conferem aptidões técnicas e profissionais que são muito procuradas no mercado de trabalho. Com o desaparecimento dos cursos médios (bacharelato) foi necessário "inventar" cursos que formassem técnicos. Esta "invenção" tem no geral corrido bastante bem já que o número de escolas profissionais e de cursos disponíveis têm vindo a multiplicar, bem como a adesão aos mesmos. Ao aumentarmos a escolaridade obrigatória para o 12º ano, estamos a fomentar a adesão a estes cursos que são essenciais para a formação dos técnicos e profissionais do nosso país. Profissões como a pesca e a agricultura renascem e renovam completamente a sua imagem com este tipo de cursos. Cada vez mais é essencial todos nós termos uma formação específica que complemente a nossa formação básica e estes cursos são a resposta a essa necessidade.

Sem recorrer a nenhum estudo, digo com toda a certeza que quanto maior é a formação de um indivíduo, melhor é a sua adaptação e capacidade de argumentação. Que significa isto? Significa que quanto maior formação uma pessoa tiver, mais possibilidade existe de essa pessoa desenvolver interesses que procurem aumentar cada vez o seu conhecimento. Ler livros, ver documentários, ler artigos na internet, comentar, debater, etc. Tudo isto é importante para a formação global de uma pessoa, pois vai "completando-a". Esse conhecimento contínuo que essa pessoa procura (fruto do estímulo da sua maior formação e consequente capacidade de compreensão e análise) vai significar melhorias para essa pessoa e para o seu país. Porque uma pessoa formada é capaz de se adaptar melhor a mudanças no seu emprego (por exemplo o primeiro plano que Salazar fez para desenvolver a indústria e a agricultura portuguesa encontraram fortes dificuldades porque os operários e agricultores não se conseguiam adaptar à elevada mecanização, fruto da sua fraca formação) o que será certamente melhor para essa pessoa. Além desta melhor adaptação no mercado de trabalho e às suas alterações, uma pessoa formada que desenvolva gostos e hábitos que aumentem sucessivamente o seu conhecimento pode mais facilmente verificar e contestar injustiças e propor soluções para os problemas que encontra. Isto reflecte-se em muitos campos, como por exemplo no político. Só se uma pessoa for capaz de analisar a actuação de um governo de uma forma coerente, é que será capaz de apontar os seus defeitos e propor alternativas ou apoiar um partido que proponha essas mesmas alternativas. Ao aumentarmos a escolaridade para o 12º ano, estamos a aumentar a probabilidade de cada vez mais pessoas procurarem o contínuo aumento do seu conhecimento, sendo essa a única via para a evolução e desenvolvimento. Se ninguém estiver disposto a procurar cada vez mais, não existem alterações.

Por tudo isto sou a favor de um alargamento da escolaridade obrigatória em 3 anos. Tal como a fraca escolaridade resultante de regimes antigos revela os seus efeitos ainda nos dias de hoje, tal medida vai ser sentida não daqui a 2 anos mas daqui a 20. E aí penso que Portugal olhará para trás e constatará com gosto a diferença que tal acto produziu.

domingo, 7 de junho de 2009

Eleições Europeias 09 - Análise

Antes de começar a análise nacional e europeia sobre as eleições disputadas hoje, quero felicitar o partido vencedor em Portugal, o PSD. A grande maioria das sondagens e projecções estavam erradas, especialmente na percentagem de votos conferida ao PS. Muito se falou sobre o voto de protesto e o cartão vermelho ao governo mas a fragilidade política do PSD foi também bastante discutida. Vamos então aos resultados e à respectiva análise.

A abstenção regista uma subida ficando nos 62,8%. Isto é uma derrota clara para todos os partidos (incluindo os pequenos). Demonstra que mesmo com pouca discussão sobre a Europa e com poucas propostas para a UE, os partidos não conseguem atrair os eleitores. Cada vez mais pessoas se sentem desmobilizadas do sistema político. Este fenómeno não é exclusivo de Portugal já que estas foram as eleições com menor participação a nível europeu. Cada vez mais os políticos e as instituições políticas se afastam do seu eleitorado o que em nada beneficia os interesses nacionais nem os interesses europeus.

Em relação à previsão que tinha feito na 4ª feira errei por 1 eurodeputado. Que "trocou" o PS pelo PSD. Confesso que não estava à espera de uma vitória de Paulo Rangel e ainda menos que esta fosse, efectivamente, expressiva. Por parte das sondagens houve 2 grandes "falhas". Uma delas foi a vitória do PS e a outra a vaticinação da quase extinção por parte do CDS.

O PSD envolto em turbulências (bem visíveis na campanha de Rangel) desde a eleição de Manuela Ferreira Leite, encontrou aqui um novo ânimo. Apesar da sua percentagem de votos não ser elevada, demonstrando não conseguir capitalizar totalmente o protesto em relação ao governo, uma vitória é sempre uma vitória e com certeza irá moralizar as hostes laranjas. Pedro Passos Coelho leva assim uma bofetada, especialmente após as declarações em plena campanha para estas eleições. Quando Paulo Rangel foi anunciado como cabeça-de-lista para as eleições europeias, muitos criticaram esse facto por ser o militante do PSD que vinha a "carregar com o partido às costas" no Parlamento, com especial destaque para os confrontos com José Sócrates. Uma vez mais Rangel conseguiu carregar o seu partido fazendo uma campanha notável culminando com esta vitória. Para mim, foi essencial o seu papel já que na minha opinião, MFL não seria capaz de mobilizar tantos eleitores.

O PS foi o grande derrotado. Perdeu votos e eurodeputados, tanto para a esquerda como para a direita. Era esperado um voto de protesto mas não nestas dimensões e as imagens vindas do Hotel Altis demonstravam que ninguém no Partido Socialista estava preparado para esta situação. Apesar de Sócrates se ter envolvido bastante na campanha, tal não foi suficiente para "contornar" as críticas face a Vital Moreira. A escolha do cabeça-de-lista foi interpretada pela maioria como uma má escolha. Nesse sentido penso que Vital teve o efeito oposto a Rangel, ou seja, enquanto que o segundo conseguiu dinamizar o PSD o primeiro fechou o PS. Talvez esteja a sobrevalorizar a importância dos cabeças-de-lista mas mesmo que tal facto não alterasse o partido vencedor, penso que a margem de diferença poderia ser encurtada.

O BE foi também um grande vencedor. Conseguiu triplicar o número de eurodeputados e tornar-se a terceira força política o que é um resultado excelente. Eleição após eleição, o Bloco tem vindo a aumentar a sua influência.

A CDU manteve o número de eurodeputados e em percentagem de votos não foi uma derrotada. Contudo foi derrotada a nível moral ao passar a ser a quarta força política ainda que num quase empate com o BE.

O CDS apesar de manter o número de eurodeputados e de estar em último no campeonato dos "grandes" surge como a surpresa da noite. Os trotskistas conseguiram superar os democratas-cristãos mas não ocorreu o descalabro que muitas sondagens previam. O CDS mantem a chama acesa mesmo com a vitória do PSD, provando ter uma identidade e eleitores próprios, não estando sujeita às movimentações feitas pelo principal partido de Direita.

O MEP apesar de não ter eleito a Laurinda Alves consegue uma votação algo expressiva e que dá alento a este novo partido.

Conclusões para as legislativas? Na minha opinião, somente a de que nenhum partido conseguirá a maioria absoluta. O embate das legislativas será muito diferente do combate para as eleições europeias. Com Sócrates e Ferreira Leite como protagonistas os resultados serão diferentes e aí o PSD partirá em desvantagem apesar desta vitória. Contudo, esta vitória dá um novo argumento e fôlego para a futura campanha do PSD onde a vitória (ao contrário do que se pensava somente há 1 ou 2 meses atrás) é uma possibilidade. Sobre a sondagem para as legislativas que a SIC revelou e que apontava o PS como vencedor (com 39,6% dos votos) e o PSD bem atrás (com 33% dos votos) tendo a discordar. Creio que se as eleições legislativas fossem hoje o PS sairia vencedor mas não com um margem de quase 7% de diferença para com o PSD. As eleições europeias não provaram que o PSD "vai à frente" mas provaram que vai bem mais perto do PS do que aquilo que a maioria do nós (eu incluido) imaginavamos.

Sobre a questão do voto de protesto tendo a discordar de algumas análises realizadas na SIC. Pacheco Pereira afirmou que o crescimento do BE se deveu ao mero voto de protesto enquanto que o crescimento do PSD se deveu a quem realmente procura uma alternativa para o poder em Portugal. E nesse sentido referiu que os portugueses iriam escolher essa alternativa nas legislativas, já que estava em jogo o futuro do nosso país e o PSD era o único que reunia condições para propôr essa "ruptura" com as políticas do governo de Sócrates. Eu penso ao contrário. O voto de protesto pode ter sido canalizado para o PSD e o crescimento do BE ter sido sustentado por eleitores que querem uma nova realidade política. O PSD é o maior partido da oposição. Quem quer apenas "humilhar" Sócrates (ou seja, não se interessa pelas propostas e ideias dos partidos, querendo somente castigar o governo vigente) vota num partido qualquer, já que esse mesmo partido não precisa de se encontrar alinhado com a ideologia do eleitor pois o seu objectivo é punir o governo. Se para o eleitor é indiferente o partido em que vota, qual será o melhor partido para castigar o governo? Talvez o seu principal opositor? Porque tem a possibilidade de ganhar eleições e assim derrotar o governo. Quem vota no BE pode sem dúvida estar em desacordo com as políticas do governo PS, mas sabe que pelo menos actualmente, o BE não tem capacidade para derrotar o PS. Quem vota BE quer uma nova política em Portugal e não apenas "protestar", porque o melhor partido para protestar é o PSD. Imagine-se que o BE obtinha o mesmo resultado que obteve nestas eleições mas que as votações entre PS e PSD trocavam. Nesta situação, o PS teria eleito 8 eurodeputados (contra 7 do PSD) e batido o PSD por 5,1% nos votos. O Bloco teria tido um excelente resultado na mesma, mas seria Sócrates humilhado? Com uma vitória em eurodeputados e com uma margem de 5,1% em votos, penso que não. Analisando a situação, penso que faz mais sentido o voto de protesto ter sido canalizado para o PSD e o crescimento do BE tenha sido realizado por eleitores que compreendem e concordam efectivamente com os projectos daquele partido.

A nível europeu vimos um crescimento importante da direita, tanto do PPE como da extrema-direita. Pessoalmente não são resultados que me agradem já que esperava um reforço no número de eurodeputados do PSE. Durão Barroso verá possivelmente a releição confirmada e as políticas comunitárias não deverão sofrer nenhum "abalo" para grande desgosto meu. A democracia é mesmo assim e no geral, a direita europeia está de parabéns. Mais combates se seguirão e em especial as legislativas, serão bastante interessantes de estudar e analisar.

sábado, 6 de junho de 2009

Livros - 2


"A Vingança de Gaia" é um livro de James Lovelock sobre alterações climáticas e o futuro do planeta Terra. A sua edição em Portugal cabe à Gradiva.

Neste livro James Lovelock oferece-nos a sua perspectiva pessoal acerca do estado de "saúde" do nosso planeta e que atitudes devemos tomar no futuro. Lovelock tem uma posição bastante extremista e é um acérrimo defensor da energia nuclear.

De uma forma directa e simples mas baseada em factos e análises, o autor desfaz as nossas esperanças de poder evitar as consequências das alterações climáticas. O planeta já está a mudar e a única coisa que podemos fazer é tentar adaptarmo-nos e desacelarar o processo. Não existe uma via fácil para a salvação da Terra e actualmente não estamos sequer perto de construir uma solução. O planeta Terra é um sistema vivo (Gaia) e está em guerra com a espécie humana. Se não mudarmos as nossas atitudes e os nossos pensamentos caminhamos para uma lenta e penosa guerra da qual não teremos hipóteses de sair vitoriosos.

Pessoalmente discordo do autor em bastantes aspectos, nomeadamente na questão da energia nuclear. Contudo, recomendo este livro pois dá-nos um "banho" de realidade demonstrando que a espécie humana não tem tudo controlado e que não existe uma "cura" milagrosa, fácil e rápida para enfrentar o nosso maior problema... A degradação do local onde vivemos e do qual dependemos para sobreviver.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Energia | Fusão Nuclear

Fez hoje uma semana que foi inaugurado o novo centro de fusão nuclear, sediado na Califórnia (EUA). Apesar da sua construção ter demorado mais 7 anos que o previsto (totalizando 15) e ter custado o triplo do previsto (num total de 2.500.000.000 de euros) a sua inauguração ocorreu num ambiente de grande festa onde participaram cerca de 3500 pessoas, incluindo Arnold Schwarzenegger (Governador da Califórnia) e Steven Chu (Secretário de Estado para a Energia).

A entidade responsável por explorar o projecto é a National Ignition Facility que deverá começar a fazer testes neste novo centro já em 2010 e aperfeiçoar a produção de energia através da fusão nuclear até 2040. Há muito que se debate a fusão nuclear devido ao seu enorme potencial de produção energética sem a emissão de gases poluentes associados. A fusão nuclear consiste em reproduzir os processos químicos existentes nas estrelas e é bastante diferente da energia nuclear actual (fissão nuclear) pois produz quantidades de energia muito superiores e é mais "amiga" do ambiente. Para termos uma ideia do potencial desta fonte energética alguns estudos apontam que um kilómetro cúbico de água seria o suficiente para igualar todas as reservas de petróleo a níve mundial. A fusão nuclear não é uma descoberta recente e já se concretiza a mesma com sucesso. O problema é que se gasta mais energia no processo do que aquela que se consegue retirar, sendo o objectivo desta investigação de 30 anos contrariar esta "tendência" e provar a rentabilidade energética desta fonte de energia renovável e limpa.

Pessoalmente tenho algumas reservas em relação à fusão nuclear e quero esperar por mais avanços neste tipo de tecnologia. Confesso que estou um pouco céptico em relação ao potencial desta fonte de energia. Contudo, a fusão nuclear merece por mérito próprio o "benefício da dúvida", ou seja, sou totalmente a favor da investigação e desenvolvimento. Só assim será possível comprovar se o potencial referido por alguns cientistas corresponde mesmo à realidade. Sou um apologista dos sistemas de micro-geração interligados por redes inteligentes de distribuição mas a "promessa" da fusão nuclear é a de energia infinita e isso é obviamente aliciante para uma sociedade totalmente dependente da energia e cuja necessidade anual tem vindo a aumentar de forma galopante. Com a intermitência do preço do petróleo, com o esgotamento das fontes fósseis energéticas e com a problemática das alterações climáticas, não nos podemos "dar ao luxo" de descurar nenhuma opção nem de retirar qualquer carta do baralho. Da mesma maneira que não devemos deixar de apoiar a investigação da fusão nuclear, também não devemos depositar a totalidade das nossas esperanças nesta fonte de energia. A fusão nuclear é um dos muitos caminhos a seguir onde cada vez mais formas inovadoras de produção de energia vão surgir e submeter-se ao teste da Humanidade, estando à partida condenadas ao sucesso ou ao fracasso mas onde a única forma de saber a resposta é através da investigação.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Pobreza | Solidariedade

A pobreza é um problema que afecta todo o mundo, com especial incidência nos países subdesenvolvidos. Uma das mais severas consequências desta crise foi o aumento que provocou no número de pobres. São cada vez mais e possivelmente o seu número vai continuar a aumentar num futuro próximo. São milhares de milhões e nesse grupo estão incluídas milhões de crianças. Ninguém no mundo devia ter fome. É uma necessidade básica e um direito de todos nós.

Seguramente que aquilo que mais me impressiona são imagens vindas de países africanos e asiáticos mas quando penso bem, verifico que existem muitos milhares de portugueses numa situação semelhante. Existem inúmeras instituições que todos os dias lutam contra este flagelo e fornecem alimentos a milhões de pobres pelo mundo fora. Em Portugal é bem conhecida a acção do banco alimentar contra a fome. Cada vez mais a generalidade das pessoas apercebe-se da importância deste tipo de associações e tende a sensibilizar-se com as mesmas, apoiando as suas campanhas. Tal deve-se em parte, ao facto de muitas pessoas adquirirem a noção de que hoje são elas a contribuir mas amanhã poderão ser elas a pedir. A ONU tem como objectivo erradicar a pobreza extrema até 2015. Para o fazer é necessário fazer mais e não desviar a nossa atenção de todos os pobres, utilizando a crise como argumento.

Para mim a chave não reside necessariamente em sucessivos aumentos de doações com vista a comprar géneros alimentares. É necessário assegurar que os pobres têm um "alívio" imediato mas não nos podemos esquecer que este tipo de solução apenas adia o problema para o dia seguinte. Além deste alívio "artificial" através da doação de géneros alimentares é necessário combater as causas daquela pobreza e inverter o ciclo social da pessoa tentando com que passe de um pobre para alguém com recursos para ajudar outros pobres. É preciso garantir que aquele pobre nunca mais volta a esse estatuto.

Muitas vezes as políticas de integração e reinserção social confundem-se com as políticas de combate à pobreza, especialmente nos países desenvolvidos. Isto deve-se à constante discriminação de que os pobres são alvo diariamente, muitas vezes considerados "cidadãos de 2ª". É preciso "cultivar" esta interligação já que é possível com uma só medida combater dois problemas graves e tentar iniciar uma espiral de solidariedade rumo a uma prosperidade futura. E que espiral é essa? Não é uma espiral mas sim duas e que para mim, representam a "ideologia" de como combater a pobreza e construir um futuro próspero. Uma espiral é ascendente e a outra descendente e estão directamente relacionadas (a subida da 1ª provoca a descida da 2ª).

1ª espiral) Simboliza a verdadeira solução para o problema da pobreza e da exclusão social. Conta com medidas que podem demorar algum tempo a ser implementadas mas têm como objectivo atingir um ponto de "não retorno" na situação do pobre, ou seja, têm a possibilidade de conferir uma solução a longo prazo para a pessoa visada e para as gerações futuras.

- Acesso massificado ao micro-crédito. Permite gerar riqueza e realização pessoal bem como experiência profissional.
- Investimento na educação. A educação é a base de tudo e é absolutamente essencial para a erradicação da pobreza em certas comunidades (especialmente as subdesenvolvidas). Começa-se pela escola primária, básica, secundária e de seguida as faculdades e institutos politécnicos. Estas são as "sementes" para uma comunidade capaz de gerar riqueza e prosperidade.
- Investimento na formação técnico-profissional. Quando falo em educação penso essencialmente na formação das crianças que 15/20 anos mais tarde vão tornar a sua comunidade em algo próspero e com fortes perspectivas de futuro. Entretanto é necessário uma formação específica para a classe adulta tendo em conta os níveis de instrução e de experiência profissional (por exemplo se um agricultor em África souber colocar adubos nas suas terras e escolher a técnica de rega adequada poderá obter melhores rendimentos na sua exploração agrária, levando a um aumento do seu rendimento).
- Fomentar o comércio justo. É preciso assegurar que os produtos que compramos não provêem de uma exploração em que os produtores não recebem nem o suficiente para comer. Comércio livre sim, desde que regulado e justo. Provavelmente esta seria uma medida que traria muitos benefícios aos pobres dos países subdesenvolvidos e poderia financiar o desenvolvimento das suas comunidades.
- Investimento em infra-estruturas básicas. Sistemas de captação e distribuição de água, electricidade (energias renováveis), fogos habitacionais, hospitais, etc. Tudo isto são investimentos necessários para assegurar o desenvolvimento de uma comunidade.

2ª espiral) Simboliza o alívio imediato prestado às populações em dificuldades. Conta com medidas que não sendo em si soluções para a efectiva resolução do problema, são essenciais para sustentar a comunidade no curto prazo.

- Doação de alimentos. É imperativo assegurar a alimentação da comunidade visada.
- Doação de dinheiro. Servirá para a construção das infra-estruturas básicas e que não tenham como propósito gerar riqueza no sentido de serem rentáveis (escolas e hospitais por exemplo).
- Concessão de micro-crédito para os micro-empresários gerarem riqueza e prosperidade.
- Concessão de crédito sem juros ou com juros fixos e baixos. Este tipo de crédito poderia servir para financiar actividades que mais tarde se tornariam rentáveis como a venda de água ou de electricidade, onde as comunidades pagavam as dívidas com os lucros desse tipo de explorações.
- Formação básica, técnica e profissional. Um pilar essencial para cimentar o futuro da comunidade.
- Outros apoios como auxílio na construção das infra-estruturas e respectiva gestão levando a uma adaptação progressiva da comunidade para que se torne autónoma.

Estas duas espirais relacionam-se no sentido em que é necessário um grande investimento inicial (2ª espiral) para colocar um "tampão" nos problemas de uma determinada comunidade e financiar a sua prosperidade futura. Essa prosperidade é assegurada pela 1ª espiral cujo aumento faz diminuir o tamanho da 2ª. Ou seja, de início é necessário um grande investimento mas à medida que os investimentos surtem o seu efeito a necessidade de financiamento e apoio vai diminuindo. Quanto mais desenvolvida estiver a comunidade (fruto do investimento inicial da 2ª espiral) menor vai ser a necessidade de apoio, daí o crescimento da 1ª significar um decréscimo da 2ª. Esta é para mim, uma "receita" a ser utilizada para a efectiva erradicação da pobreza e da exclusão social associada somente com a necessidade de ser adaptada especificamente quando posta em prática.

Termino este post com um apelo a todos aqueles que quiserem lutar contra a Fome já no dia 07 de Junho, através da Marcha Mundial Contra a Fome a realizar em Lisboa e no Porto. Cada inscrição na caminhada financia 25 refeições. Para quem não puder estar presente, pode dar o seu contributo através da caminhada online. Mais informações aqui e aqui.